Foi magra a colheita que as portuguesas fizeram no Campeonato Ibérico Feminino de Orientação, disputado no último fim de semana, na região de Cáceres, em Espanha. Os títulos foram atribuídos à pontuação conjunta de três etapas, representando as distâncias clássicas da modalidade: Longa, no sábado, em Torremocha, Albalá; Média e Sprint, no domingo, em Malpartida de Cáceres, tendo como cenário o monumento natural de Los Barruecos, onde foram rodados vários planos da famosa série de televisão “A Guerra dos Tronos”, que também projetou no pequeno ecrã a aldeia portuguesa de Monsanto.
De 42 medalhas possíveis, apenas sete atravessaram a fronteira, com a agravante de seis delas terem premiado veteranas com mais de 50 anos. Nos escalões abaixo dessa idade, o nosso país teve de contentar-se com o bronze de Alexandra Serra Campos (.COM), em D20. A melhor representante da Elite portuguesa quedou-se pelo 9º lugar, situação a que não é certamente alheia a falta de disponibilidade para se deslocarem a Espanha as nossas mais credenciadas atletas. Das dez primeiras do ranking nacional apenas compareceu Stepanka Betkova, a única que não era elegível para o título ibérico.
Portugal só teve duas campeãs: Luísa Mateus (COC), em D65, e Maria de São João (CLAC), em D70. As outras quatro medalhadas, todas com prata, foram Susana Pontes (D50), Isabel Monteiro (D60), Margarida Rocha (D70) e Manuela Alves (D75).
O ADN Sesimbra, reduzido a uma literal meia dúzia de concorrentes, colocou duas atletas no top-10: Luísa Gaboleiro, 7ª em D60; Catarina Félix, 10ª em D55.
Carolina Baeta (D14), Patrícia Pereira (D45) e Olga Paulino (D50) ocuparam posições entre 22ª e 29ª.
Estranha foi a situação da nossa Jesus Leão, que, por uma falha de comunicação da FPO, não apareceu classificada. A circunstância de estar a competir para o ranking português em D21A e de, neste Ibérico, se apresentar no seu escalão etário próprio, terá levado à informação de não ter inscrição regularizada, o que oficialmente a remeteu para o estatuto de fora da competição (nc). Os nossos cálculos indicam que, no somatório das três corridas, totalizou 1888 pontos, o que lhe confere a 14ª posição em D55.
Duas medalhas no Troféu Extremadura
Em simultâneo com as três etapas do Ibérico Feminino, e exatamente nos mesmos mapas, foram também traçados percursos para os escalões masculinos, a contar para o VIII Troféu Extremadura, que culminou, no feriado de segunda-feira, com uma distância média no Pico de las Tinieblas, Torremocha.
Na classificação final das quatro corridas, abrangendo os setores feminino e masculino, subiram ao pódio dois atletas da nossa coletividade: Luísa Gaboleiro (3ª D60) e Manuel Dias (2º H70).
A quarta etapa não acarretou, para as outras cinco senhoras, alterações significativas no resultado final do troféu.
No setor masculino do Troféu Extremadura, destaca-se o 14º lugar de Tiago Baltazar em HE, onde Rui Miguel Pereira e Luís Boal ficaram em 27º e 25º, tendo este último sofrido uma entorse que não lhe permitiu concluir a derradeira etapa.
Dinis Martins (mp na segunda-feira) e Gustavo Santana terminaram a meio da tabela em H14, e o mesmo aconteceu a Jorge Baltazar e Fernando Mendes no muito concorrido escalão de H55, enquanto no H60 Feliciano Alves se situou uns furos abaixo dessa posição, muito por culpa da desclassificação (mp) na primeira etapa de domingo.
Igor Ventura prescindiu do sprint e, por isso, encabeçou o último quarto dos classificados em H21A. José Santana e Eduardo Trepeças também não alcançaram a primeira metade da tabela em H21B, ao contrário de João Miguel Pereira e Salvador Mendes, que foram 10º e 11º entre os 22 participantes da classe de formação T10.
Terrenos de eleição
Merecem grande aplauso os terrenos escolhidos para este troféu de quatro etapas em três dias. O montado da distância longa, no sábado, permitiu uma corrida ao nível dos mapas mais rápidos do nosso Alentejo. O competentíssimo traçador, José Samper, tinha avisado de antemão que, por causa das vedações, os percursos, embora extensos, seguiam uma filosofia de distância média. E alguns atletas mais experientes queixaram-se de uma cartografia a denunciar pouca elaboração sobre as curvas de nível fornecidas pelo programa Lidar. Mas a esmagadora maioria dos corredores nem deu por essas questões de “pormenor”. O piso macio mas consistente convidava à aceleração. Confiando na bússola e dando atenção a distintos aglomerados rochosos, quase não tiraram o pé da tábua. A Elite masculina tinha 17,2 km de distância em linha, que, atendendo a desvios forçados ou a opções de percurso, se esticou nalguns casos até perto dos 20 km. Mesmo assim, e apesar dos custos da navegação, houve seis atletas a baixarem dos 90 minutos.
Pelo contrário, o terreno de domingo de manhã, dominado por gigantescos blocos de granito semeados a esmo entre silvados e penedos de diversa dimensão, recomendava toda a cautela do mundo. Nenhuma velocidade e a máxima concentração. Los Barruecos são mesmo um “monumento natural” e terão sido o chamariz decisivo para alguns dos 1240 orientistas de 20 países que acorreram a este evento. As veredas sem norte que, nalguns sítios, serpenteiam entre os rochedos de pouco valem ao navegante se este perder o contacto com o mapa. A organização contrariou as recomendações usuais para, nas provas de distância média, apresentar mapas na escala 1:10.000 (e 1:7500 para os veteranos acima dos 60 anos). Aqui, dada a complexidade do terreno, os “jovens” navegaram em 1:7500 e os maiores de 55 anos em 1:5000. Mesmo com esta ampliação, requeria-se o maior cuidado para uma progressão certeira. Foi um dos momentos altos deste VIII Troféu da Extremadura.
A pouca distância deste cenário, disputou-se de tarde um raro sprint de floresta. Era uma zona aberta, quase totalmente desarborizada e subindo levemente para um vasto lajeado central de contornos irregulares mas sobre o qual se podia correr com segurança. Nas escalas 1:4000 e 1:3000 e com caminho livre, era tudo “logo ali”. Para os maiores de 60 anos, 1 cm no mapa eram apenas 30 metros no terreno. Que bom e que perigoso! Imaginem um campo com 500 por 250 metros e delimitado por estradões pavimentados. Foi esse o coração da prova. Dezenas e dezenas de atletas a evoluir simultaneamente em diferentes direções. Quem viu de fora diz que foi uma coreografia louca, imprevisível, selvagem. Continuamos na onda do aplauso.
E aplauso vai também para o terreno de segunda-feira, Pico de las Tinieblas. Cartografado em 2018 pelo cotado Viktor Dobretsov, e revisto há três meses pelo autor do mapa de sábado, é uma peça de antologia. Foi, sem dúvida, o percurso mais desafiante para mim. Alternando pequenas zonas abertas com outras de reduzida visibilidade, tem uma boa mistura de afloramentos rochosos, pedras de média dimensão, grandes calhaus, pequenas e grandes falésias, e bastante vegetação rasteira. Por alguma razão, a diminuta brigada nórdica chamou a si neste dia a liderança nos escalões de veteranos em que competiu.
Em resumo, foi uma belíssima jornada de orientação, mesmo que os resultados possam não ter sido muito encorajadores. Valeu bem os 300 km de carro para cada lado. E, ao contrário das previsões que, poucos dias antes, apontavam para a possibilidade de chuva durante todo o fim de semana, acabámos por fazer quatro provas enxutas. A única chuva, persistente e às vezes bem forte, foi na viagem de ida, sexta-feira ao fim da tarde, antes de chegar a Mérida.
Um certo incómodo
E agora o registo de um momento incómodo. Não estive presente na cerimónia de entrega de prémios do Ibérico, marcada para as 19.30 de domingo, no Pavilhão Municipal de Malpartida de Cáceres. Convenhamos que, para quem só tenha ido participar no Campeonato Ibérico Feminino, planeando regressar a Portugal ainda nesse dia, a hora não terá sido a mais conveniente. E, conhecidos os fracos resultados das nossas representantes, não se esperaria grande afluência de portugueses. Mas o motivo do incómodo foi outro.
Alguém que assistiu à sessão relatou-me o desconforto de não ter visto entre as entidades do palco qualquer representante da Federação Portuguesa. Era um Campeonato Ibérico, que diabo! É verdade que esta competição já teve outros pergaminhos, mas há um mínimo de dignidade que é preciso assegurar. Uso a palavra “dignidade” respeitando a mágoa de quem me contou a cena.
Seria uma tentação lançar já maus augúrios sobre o Ibérico Masculino de 2026, que, talvez por lapso, o OriOasis aponta para 5 e 6 de dezembro, mas está anunciado na página da FEDO para 21 e 22 de março, a coincidir com o Troféu Quijotes. O prestígio deste último evento, que vai ter agora a sua 19ª edição, garante a inscrição de muitos estrangeiros, mas é de recear uma escassa representação portuguesa, atendendo aos 830 km que dista de Lisboa o centro do evento, em Cañete, Cuenca.
Também sobre o próximo Ibérico Feminino, marcado para 1 a 3 de maio, em Alcácer do Sal, paira a relativa concorrência do Campeonato de Espanha de Raid Aventura, que na mesma data terá lugar em Alicante.
O presidente da FPO, que contactei sobre a ausência de representação na cerimónia de Malpartida de Cáceres, desvalorizou o episódio, garantindo que não houve nessa situação qualquer propósito acintoso. As relações de cooperação com a congénere espanhola mantêm-se ao melhor nível, garantiu Rui Mora, revelando que, ainda na semana passada, manteve com os dirigentes da FEDO uma reunião para concertar assuntos de interesse comum.
A grande festa do Absoluto
Regressados de Espanha com este banho de orientação, é tempo de refletir sobre os deslizes do fim de semana e reunir forças para o Campeonato Nacional Absoluto, que começa já no sábado em Santiago do Cacém.
O ADN Sesimbra é o clube com maior número de inscritos na prova (29), incluindo os escalões abertos e jovens de T10 e H/D 14. A discutir o CNA seremos 18, contra 20 do CAOS, 19 do COC, 16 do Palmela Desporto, 13 do GD4C, 11 do CPOC, 10 do COALA, 8 do Ori-Estarreja e 7 do .COM, CP Armada e Ori-Mondego, para referir apenas as coletividades mais representadas, embora se saiba que agremiações menos numerosas, como o CMo Funchal, podem também levar à costa alentejana um ou outro candidato a lugares de topo nesta singular competição, que teoricamente reúne em pé de igualdade atletas dos 16 aos quase 80 anos.
O importante é aproveitar esta derradeira oportunidade do ano para pôr em prática os ensinamentos colhidos no notável programa de treinos que o nosso companheiro Tiago Baltazar vem desenvolvendo semanalmente. E também para fortalecer os laços de grupo e desfrutar da comunhão com a natureza num fim de semana que se anuncia soalheiro e com temperaturas muito agradáveis para este fim de outono.
O calendário de orientação inclui ainda, no fim de semana seguinte, duas provas de BTT em Alvaiázere, sendo uma delas o CN Estafetas, e mais uma atividade pedestre do Barreiro no Mapa. Mas, antes que Leirosa e a Madeira abram o programa de 2026, a última grande festa desta nossa amada modalidade em 2025 será provavelmente o CN Absoluto, com cerca de 250 inscritos. Comecem a arrumar as mochilas!
Manuel Dias







